Os livros apócrifos representam um dos temas mais debatidos e controversos em qualquer curso de Bibliologia aprofundado. Compreender o conceito de apócrifo, conhecer a lista desses livros, entender as diferenças entre os cânones hebraico, protestante e católico, e discernir as razões históricas e teológicas para sua rejeição pela tradição protestante é essencial para qualquer estudante sério das Escrituras. Neste estudo detalhado sobre os livros apócrifos, você descobrirá a evolução do termo desde seu significado original de “oculto” até sua aplicação atual a escritos não canônicos do período intertestamentário, explorará as motivações históricas que levaram à inclusão desses livros no cânon católico durante o Concílio de Trento, e compreenderá os fundamentos sólidos que sustentam a rejeição protestante desses escritos como Escritura inspirada. Este conhecimento é crucial para defender biblicamente a fé reformada e para compreender as diferenças doutrinárias entre protestantismo e catolicismo romano.

A questão dos livros apócrifos não é meramente acadêmica ou de interesse histórico. Ela tem implicações profundas para doutrinas fundamentais da fé cristã, incluindo a natureza da salvação, a suficiência das Escrituras e a autoridade final em questões de fé e prática.
O Termo “Apócrifo”: Origem e Evolução de Significado
A palavra “apócrifo” possui uma história fascinante que reflete mudanças significativas em sua compreensão e aplicação ao longo dos séculos.
Etimologia Original
No grego clássico, o termo “apócrifo” (ἀπόκρυφος) significava originalmente “oculto”, “escondido” ou “difícil de entender”. Não carregava necessariamente uma conotação negativa, referindo-se simplesmente a algo que estava escondido ou não era amplamente conhecido.
Posteriormente, o termo adquiriu o sentido de “esotérico”, referindo-se a conhecimento secreto ou ensinamentos que apenas os iniciados ou pessoas com preparação especial poderiam compreender adequadamente.
Mudança de Significado nos Primeiros Séculos
Com o tempo, especialmente a partir dos séculos III e IV da era cristã, teólogos e estudiosos como Irineu de Lyon e Jerônimo de Estridão começaram a aplicar o termo de maneira mais específica a livros relacionados ao Antigo Testamento que não eram reconhecidos como canônicos pela comunidade judaica.
Jerônimo, o grande erudito que traduziu a Bíblia para o latim (produzindo a Vulgata), fez uma distinção clara entre os livros canônicos do Antigo Testamento hebraico e outros escritos que circulavam em grego. Ele usou o termo “apócrifo” para designar estes últimos, reconhecendo que eram úteis para edificação mas não possuíam autoridade canônica.

Significado Atual no Contexto Protestante
Hoje, especialmente no contexto da Reforma Protestante e seus herdeiros teológicos, o termo “apócrifo” denota especificamente escritos judaicos não canônicos originários do período intertestamentário — o período de aproximadamente 400 anos entre o último profeta do Antigo Testamento (Malaquias) e o início do ministério de João Batista registrado no Novo Testamento.
A questão teológica central é determinar se esses livros foram “escondidos” ou “ocultos” devido à sua suposta profundidade espiritual especial, ou se foram progressivamente marginalizados por serem espúrios e de confiabilidade duvidosa.
Para o estudo sério da Bibliologia, o termo “apócrifo” refere-se a livros que não possuem autorização ou credencial divina de inspiração e que, portanto, não devem fazer parte do cânon cristão ou judaico reconhecido.
Diferenças Fundamentais Entre os Cânones Bíblicos
A compreensão adequada dos livros apócrifos exige que reconheçamos as diferenças significativas entre os diferentes cânones bíblicos utilizados por distintas comunidades de fé.
A Bíblia Hebraica (Tanakh)
A Bíblia Hebraica, conhecida como Tanakh (acrônimo de Torah, Nevi’im e Ketuvim — Lei, Profetas e Escritos), contém 39 livros quando contados da maneira cristã. No entanto, os judeus tradicionalmente agrupam esses mesmos livros em 24 volumes, combinando alguns que os cristãos separam.
Por exemplo, os 12 profetas menores são contados como um único livro, 1 e 2 Samuel formam um livro, 1 e 2 Reis formam outro, e assim por diante. O conteúdo é idêntico ao Antigo Testamento protestante, apenas a divisão é diferente.
A Bíblia Hebraica rejeita completamente os 27 livros do Novo Testamento (obviamente, pois o judaísmo não reconhece Jesus como o Messias) e também não inclui os livros apócrifos. Para o judaísmo, o cânon do Antigo Testamento está fechado há mais de dois mil anos.
A Bíblia Protestante
A Bíblia Protestante aceita os mesmos 39 livros do Antigo Testamento que a Bíblia Hebraica contém, embora organizados de forma ligeiramente diferente, dividindo-os em categorias como livros históricos, poéticos e proféticos.
Além disso, reconhece os 27 livros do Novo Testamento como igualmente inspirados e canônicos. Totalizando assim 66 livros na Bíblia completa.
A tradição protestante, seguindo o testemunho de Jesus e dos apóstolos, bem como a posição histórica da igreja primitiva e o consenso judaico, rejeita categoricamente os livros apócrifos como não canônicos, não os considerando Escritura inspirada.

A Bíblia Católica Romana (Vulgata)
A Bíblia Católica contém os mesmos 39 livros protestantes do Antigo Testamento e os mesmos 27 livros do Novo Testamento. No entanto, ela também inclui livros adicionais conhecidos como “apócrifos” pela tradição protestante ou “deuterocanônicos” (segunda canonicidade) pela tradição católica.
Esta diferença fundamental é fonte de divergências doutrinárias significativas entre protestantismo e catolicismo, pois algumas doutrinas católicas encontram apoio parcial em textos apócrifos que os protestantes não reconhecem como autoritativos.
Lista Completa dos Livros Apócrifos
Os livros apócrifos incluídos na Bíblia Católica Romana, mas rejeitados pelos protestantes, são os seguintes:
Terceiro Esdras (também chamado 1 Esdras) — um livro histórico que narra eventos do período persa, parcialmente paralelo a Esdras canônico e Neemias.
Quarto Esdras (também chamado 2 Esdras) — um livro apocalíptico contendo visões e revelações atribuídas a Esdras.
Tobias (ou Tobit) — uma narrativa sobre a vida de um judeu piedoso chamado Tobias e as aventuras de seu filho.
Judite — a história de uma viúva judia corajosa que salvou seu povo matando um general inimigo.
Adições a Ester — capítulos e versículos adicionados ao livro canônico de Ester (especificamente capítulos 10:4 a 16:22), incluindo orações e cartas não presentes no texto hebraico.
Sabedoria de Salomão — um livro de sabedoria e filosofia atribuído ao rei Salomão, mas escrito em grego séculos após sua morte.
Eclesiástico (ou Siraque/Sirac) — um livro extenso de provérbios e sabedoria prática, também conhecido como a Sabedoria de Jesus ben Siraque.
Baruque — atribuído a Baruque, escriba do profeta Jeremias, incluindo a Carta de Jeremias como apêndice.
Adições a Daniel — três narrativas inseridas no livro canônico de Daniel: a Oração de Azarias e o Canto dos Três Jovens na Fornalha, a história de Susana, e Bel e o Dragão.
Oração de Manassés — uma oração penitencial atribuída ao rei Manassés de Judá.
Primeiro Macabeus — relato histórico valioso da revolta dos Macabeus contra a opressão selêucida.
Segundo Macabeus — outro relato da revolta macabaica, parcialmente paralelo ao primeiro mas com perspectiva diferente.
É importante notar que nem todos esses livros são aceitos por todas as tradições católicas e ortodoxas da mesma maneira, havendo variações entre diferentes igrejas orientais.
A Inclusão dos Apócrifos no Cânon Católico
A história da inclusão oficial dos livros apócrifos no cânon católico é reveladora e está intimamente ligada aos conflitos da Reforma Protestante.
O Concílio de Trento (1546)
A inclusão formal e dogmática dos livros apócrifos no cânon católico ocorreu oficialmente em 8 de abril de 1546, durante a quarta sessão do Concílio de Trento. Este concílio foi convocado especificamente como resposta à Reforma Protestante que havia começado com Martinho Lutero em 1517.
Motivações Teológicas e Polêmicas
A decisão de canonizar os apócrifos foi, em grande medida, uma estratégia defensiva para combater os argumentos protestantes. Os reformadores questionavam vigorosamente doutrinas católicas como o purgatório, a oração pelos mortos, a salvação por obras meritórias e outras práticas que não encontravam suporte claro no cânon protestante.
No entanto, algumas dessas doutrinas encontravam algum respaldo aparente em textos dos livros apócrifos. Por exemplo, 2 Macabeus 12:45-46 menciona oração e sacrifício pelos mortos, texto frequentemente citado em defesa da doutrina do purgatório.
Ao aprovar oficialmente os apócrifos como canônicos e inspirados, a Igreja Católica buscava fortalecer sua base escriturística contra os argumentos protestantes e validar práticas que os reformadores rejeitavam.

Uma Decisão Controversa Mesmo Internamente
É significativo notar que mesmo dentro do catolicismo, a canonização dos apócrifos em Trento não foi universalmente aceita sem hesitação. Vários cardeais e teólogos católicos expressaram reservas, reconhecendo a tradição histórica que distinguia esses livros dos canônicos.
Razões Sólidas Para a Rejeição Protestante dos Apócrifos
Os protestantes, seguindo a tradição da Reforma, rejeitam os livros apócrifos como parte do cânon bíblico por razões teológicas, históricas e textuais sólidas e convincentes.
Ausência de Autoria Divina ou Profética
Um dos critérios fundamentais de canonicidade é a autoria divina — o livro deve demonstrar clara origem na inspiração de Deus através de um profeta ou apóstolo reconhecido.
Os livros apócrifos não foram escritos por profetas autenticados de Deus. Nenhum deles reivindica inspiração profética da maneira que os livros canônicos fazem. Alguns até mesmo negam explicitamente tal inspiração, como 1 Macabeus 9:27, que lamenta a ausência de profetas em Israel naquele período.
Ausência Total de Citações no Novo Testamento
Jesus e os autores do Novo Testamento citaram o Antigo Testamento aproximadamente 300 vezes, demonstrando claramente que reconheciam sua autoridade divina e inspiração.
No entanto, não existe nenhuma citação direta ou indireta dos livros apócrifos como Escritura inspirada em todo o Novo Testamento. Embora Jesus e os apóstolos certamente conhecessem esses escritos (que circulavam amplamente no primeiro século), nunca os trataram como Palavra de Deus autoritativa.
Este silêncio eloquente é extremamente significativo. Se os apócrifos fossem genuinamente inspirados e canônicos, seria incompreensível que Jesus e os apóstolos jamais os citassem como autoridade.
Rejeição pelo Cânon Judaico
Os judeus foram os guardiões originais do Antigo Testamento, confiados por Deus com Suas palavras sagradas (Romanos 3:2). Eles nunca aceitaram os apócrifos como parte de suas Escrituras sagradas.
Flávio Josefo, o renomado historiador judeu do primeiro século, testificou que o cânon hebraico estava fechado desde o período persa (tempo de Artaxerxes), contendo 22 livros (que correspondem aos 39 protestantes quando contados diferentemente) e que nada mais havia sido acrescentado desde então.
O Concílio de Jâmnia (aproximadamente 90 d.C.) ratificou formalmente o que já era consenso judaico há séculos: os apócrifos não fazem parte das Escrituras inspiradas.
Testemunhos Históricos da Igreja Primitiva
Diversos líderes, teólogos e pais da igreja primitiva rejeitaram os apócrifos ou fizeram distinção clara entre eles e os livros canônicos:
Orígenes (século III) — distinguiu claramente entre livros canônicos e apócrifos em suas listas das Escrituras.
Tertuliano (século III) — não incluiu os apócrifos em suas referências ao Antigo Testamento canônico.
Hilário de Poitiers (século IV) — listou explicitamente os 22 livros do cânon hebraico, excluindo os apócrifos.
Atanásio (século IV) — em sua famosa carta pascal de 367 d.C., listou os livros canônicos sem incluir os apócrifos, embora os mencionasse como úteis para instrução.
Melito de Sardes (século II) — viajou à Palestina especificamente para investigar quais livros os judeus consideravam canônicos, retornando com uma lista que excluía os apócrifos.
Jerônimo (século IV) — o tradutor da Vulgata latina, fez distinção explícita e repetida entre os livros canônicos do cânon hebraico e os apócrifos. Ele incluiu os apócrifos em sua tradução por pressão eclesiástica, mas sempre manteve que não eram canônicos, chamando-os de úteis para edificação mas não para estabelecer doutrina.
Inclusão Acidental na Septuaginta
A Septuaginta (LXX), a tradução grega do Antigo Testamento produzida entre 250-150 a.C., foi criada para servir judeus de língua grega dispersos pelo mundo mediterrâneo.
Durante o processo de produção de manuscritos da Septuaginta, alguns livros apócrifos foram copiados e incluídos junto com os livros canônicos nos mesmos códices (volumes encadernados), sem necessariamente implicar que eram considerados igualmente inspirados.
Esta proximidade física nos manuscritos pode ter levado posteriormente a confusão sobre o status canônico desses livros, especialmente entre cristãos gentios que não tinham conhecimento profundo da tradição judaica de canonicidade.

Conclusão
Os livros apócrifos, embora possam conter informações históricas interessantes, reflexões morais edificantes e narrativas culturalmente significativas sobre o período intertestamentário, não possuem a mesma autoridade divina, inspiração sobrenatural ou status canônico dos livros reconhecidos como Escritura Sagrada.
A igreja protestante, fundamentada em evidências históricas sólidas, no testemunho unânime do Novo Testamento, no consenso judaico sobre o cânon, no testemunho de numerosos pais da igreja e na própria natureza da inspiração divina, não aceita os apócrifos como parte da Escritura inspirada e autoritativa.
É importante e valioso que o estudante sério da Bíblia conheça esses livros para fins de pesquisa histórica, compreensão do contexto intertestamentário e apreciação da literatura judaica daquele período. Muitos contêm relatos históricos úteis sobre eventos entre os testamentos.
No entanto, conhecê-los não significa atribuir-lhes o status de Palavra inspirada de Deus. Eles podem ser lidos com proveito para edificação pessoal e conhecimento histórico, mas não devem ser usados como base para estabelecer doutrina cristã ou como autoridade final em questões de fé e prática.
A Bíblia protestante de 66 livros contém tudo que Deus desejou revelar para a salvação da humanidade e para equipar completamente os santos para toda boa obra. Ela é completa, suficiente e plenamente autoritativa.




