Curso de Bibliologia: História das Traduções da Bíblia para o Português – Lição 19

A jornada das Escrituras Sagradas desde as línguas originais até chegar ao idioma português representa um dos capítulos mais fascinantes da história cristã. Compreender como a Palavra de Deus atravessou milênios, culturas e idiomas para alcançar os povos de língua portuguesa é essencial para todo estudante sério da Bíblia. Neste curso de bibliologia, exploraremos o desenvolvimento histórico das traduções bíblicas, desde as primeiras versões semíticas até as modernas edições em português, revelando a providência divina na preservação e disseminação de Sua mensagem.

O estudo das traduções bíblicas revela não apenas história linguística, mas demonstra o cumprimento do mandamento de Cristo de levar o evangelho a todas as nações. Cada tradução representa esforço dedicado de servos comprometidos em tornar as Escrituras acessíveis aos povos em seus próprios idiomas.

Por Que as Traduções Bíblicas São Necessárias

A Grande Comissão estabelecida por Jesus Cristo fundamenta a necessidade das traduções das Escrituras. O mandamento de pregar o evangelho a toda criatura e fazer discípulos de todas as nações implica necessariamente que a mensagem divina seja comunicada em linguagem compreensível para cada povo.

O mundo compõe-se de milhares de línguas, tribos e nações distintas. Para que a revelação divina alcance cada pessoa em sua própria língua materna, as traduções tornam-se imperativas. Atualmente, as Escrituras encontram-se disponíveis em mais de duas mil idiomas, testemunho eloquente da provisão divina para cumprimento desta missão.

A tradução bíblica não representa apenas exercício linguístico, mas constitui instrumento essencial para propagação do Reino de Deus. Através das traduções, povos de todas as culturas podem acessar diretamente a revelação divina e experimentar seu poder transformador.

As Primeiras Versões Semíticas das Escrituras

O Pentateuco Samaritano

Entre as versões mais antigas do texto bíblico encontra-se o Pentateuco Samaritano, que tecnicamente não constitui tradução, mas representa o texto hebraico dos cinco primeiros livros escritos em caracteres samaritanos distintos.

O dialeto samaritano desenvolveu-se como derivação do hebraico antigo após o cativeiro das dez tribos do norte de Israel. Esta versão tornou-se escritura sagrada da comunidade samaritana e existe em diversas cópias manuscritas.

Algumas dessas cópias são reivindicadas como produzidas por descendentes diretos de Moisés, embora tais afirmações careçam de comprovação histórica definitiva. Ainda assim, o Pentateuco Samaritano oferece importante testemunho textual para estudos comparativos.

Os Targuns Aramaicos

Após o exílio babilônico, significativa parcela do povo judeu perdeu fluência na língua hebraica. O aramaico tornou-se idioma comum entre as comunidades judaicas dispersas. Esta mudança linguística criou necessidade de versões acessíveis das Escrituras.

Os Targuns surgiram como paráfrases explicativas do Antigo Testamento em aramaico. O termo “Targum” significa literalmente “interpretação”. Durante leituras públicas das Escrituras nas sinagogas, explicações em aramaico seguiam-se à leitura hebraica para garantir compreensão do povo.

Este padrão encontra respaldo bíblico. O livro de Neemias descreve como os levitas liam a Lei e davam explicações para que o povo entendesse o que estava sendo lido. Os Targuns formalizaram esta prática, tornando-se importantes ferramentas para preservação e transmissão do conhecimento bíblico.

A Septuaginta: Tradução Grega que Preparou o Caminho

A Septuaginta representa a mais importante e influente das antigas versões gregas das Escrituras. Designada comumente pela sigla LXX (setenta em algarismos romanos), esta tradução desempenhou papel crucial na preparação do mundo para recepção do evangelho.

Segundo relatos históricos, o rei Ptolomeu Filadelfo do Egito, governante entre 285 e 246 antes de Cristo, solicitou tradução das Escrituras hebraicas para enriquecer a famosa Biblioteca de Alexandria. Seu bibliotecário, Demétrio de Falero, coordenou o pedido junto ao sumo sacerdote judaico Eleazar.

Eruditos foram enviados para realizar o trabalho de tradução na ilha de Faros, próxima a Alexandria. A Septuaginta alcançou ampla disseminação entre comunidades judaicas dispersas pelo mundo mediterrâneo, conhecidas como Diáspora.

Esta tradução grega providencialmente preparou povos gentios para recepção das profecias messiânicas. Quando o evangelho começou a ser proclamado, muitos já possuíam acesso às Escrituras do Antigo Testamento através da Septuaginta. Jesus e seus discípulos demonstraram familiaridade com esta versão, citando-a frequentemente.

Outras Versões Gregas Antigas

Além da Septuaginta, outras traduções gregas surgiram nos primeiros séculos da era cristã. Áquila produziu tradução extremamente literal do Antigo Testamento por volta do ano 138 depois de Cristo, buscando precisão palavra por palavra.

Teodocião realizou revisão da Septuaginta aproximadamente em 160 depois de Cristo, corrigindo percebidas imprecisões. Símaco produziu sua própria tradução do Antigo Testamento cerca do ano 218, buscando equilíbrio entre literalidade e compreensibilidade.

A Monumental Hexápla de Orígenes

Orígenes, erudito cristão do terceiro século, compilou obra extraordinária conhecida como Hexápla. Embora não seja propriamente tradução, esta obra representou ferramenta comparativa sem precedentes para estudo textual.

A Hexápla apresentava seis colunas paralelas contendo: o texto hebraico original, transliteração grega do texto hebraico, versão de Áquila, versão de Símaco, Septuaginta, e versão de Teodocião. Este trabalho monumental foi compilado em Cesareia por volta do ano 228.

Embora a obra completa tenha se perdido, fragmentos e citações preservadas tornaram-se inestimáveis para estudiosos posteriores, incluindo Jerônimo em seu trabalho de tradução da Vulgata.

As Versões Siríacas e a Expansão do Cristianismo

Com expansão do cristianismo para regiões onde o siríaco era falado, surgiram traduções neste importante idioma semítico da Mesopotâmia.

A Peshitta, cujo nome significa “simples”, foi produzida diretamente do hebraico pela igreja siríaca de Edessa durante o segundo século. Abrangendo tanto Antigo quanto Novo Testamento, com poucas exceções, esta versão tornou-se escritura oficial da igreja siríaca.

Sua conclusão data entre os anos 150 e 200 da era cristã. A Peshitta exerceu influência significativa sobre traduções posteriores em árabe, persa e armênio, demonstrando seu alcance e importância histórica.

Filoxeno, bispo de Hierápolis, produziu tradução siríaca do Novo Testamento em 508 depois de Cristo, conhecida como versão Filoxênia, contribuindo para diversidade textual disponível para estudos comparativos.

As Versões Latinas e o Mundo Ocidental

O latim, língua do Império Romano, tornou-se veículo essencial para disseminação das Escrituras no mundo ocidental. Significativamente, o título afixado na cruz de Cristo foi escrito em hebraico, grego e latim, demonstrando a importância destes três idiomas.

A Antiga Versão Latina Africana

Produzida no norte da África, particularmente em Cartago, esta versão abrangia ambos os testamentos. Seu Antigo Testamento baseou-se na Septuaginta grega, não sendo traduzido diretamente do hebraico original.

A Ítala

Representando revisão da Antiga Versão Latina, a Ítala foi preparada na Itália durante segunda metade do segundo século. Esta versão buscou aprimorar qualidade e precisão da tradução africana anterior.

A Vulgata de Jerônimo

Jerônimo, considerado um dos maiores eruditos da igreja primitiva, recebeu incumbência do bispo Damaso de Roma para revisar as versões latinas existentes entre os anos 382 e 387 depois de Cristo. Para este trabalho monumental, utilizou a Hexápla de Orígenes como ferramenta comparativa.

Reconhecendo limitações das traduções existentes, Jerônimo empreendeu projeto mais ambicioso: produzir nova versão latina traduzida diretamente das línguas originais. Entre 387 e 405, trabalhando em Belém, completou esta obra extraordinária.

O Antigo Testamento foi traduzido diretamente do hebraico, e o Novo Testamento cuidadosamente revisado. A erudição e piedade de Jerônimo produziram trabalho de qualidade excepcional que dominou o mundo cristão ocidental por mais de mil anos.

Esta versão tornou-se conhecida como Vulgata, termo derivado do latim “vulgus” significando “povo”, indicando sua característica de versão popular. Foi o primeiro livro impresso após invenção da imprensa por Gutenberg em 1452, demonstrando sua importância duradoura.

O Concílio de Trento, em 1546, decretou oficialmente a Vulgata como Bíblia autorizada da Igreja Romana, posição que manteve por séculos.

A Tradução de Lutero e a Reforma Protestante

Martinho Lutero produziu uma das traduções mais influentes da história cristã. Sua versão alemã das Escrituras tornou-se marco decisivo da Reforma Protestante e transformou profundamente a língua alemã.

Lutero traduziu o Novo Testamento em 1522, trabalhando diretamente do texto grego original. A Bíblia completa foi publicada em 1534, com Antigo Testamento traduzido do hebraico. Esta metodologia de retornar às fontes originais representava ruptura significativa com dependência exclusiva da Vulgata latina.

A tradução de Lutero não apenas tornou as Escrituras acessíveis ao povo alemão comum, mas também desempenhou papel fundamental na padronização e desenvolvimento da língua alemã moderna. Seu impacto linguístico comparou-se à influência da Versão King James sobre o inglês.

A Chegada da Bíblia ao Idioma Português

A história das traduções portuguesas das Escrituras reflete esforços de reis, religiosos e eruditos ao longo de vários séculos.

Primeiras Tentativas de Tradução

Dom Diniz, rei de Portugal no século XIII, iniciou trabalho de tradução vertendo partes do livro de Gênesis da Vulgata latina para português. Este esforço pioneiro, embora limitado, representa início importante.

Dom João I, monarca do século XIV, ordenou tradução dos Evangelhos e pessoalmente traduziu o livro de Salmos. A família real portuguesa demonstrou interesse contínuo em tornar as Escrituras acessíveis em língua vernácula.

No século XV, Frei Bernardo completou tradução do Evangelho de Mateus. A rainha Leonor, também no século XV, mandou publicar “Vida de Cristo”, harmonia dos evangelhos, além de Atos e Epístolas Universais.

João Ferreira de Almeida: O Grande Tradutor Português

João Ferreira de Almeida destaca-se como figura mais importante na história da Bíblia em português. Nascido em Portugal em 1628, converteu-se à fé protestante em 1642 e foi ordenado ministro da Igreja Reformada Holandesa em 1655.

Servindo em Batávia, atual Jacarta na Indonésia, Almeida dedicou-se à tradução das Escrituras diretamente das línguas originais. Completou o Novo Testamento em 1670, traduzindo do grego original. A primeira edição foi publicada em Amsterdã em 1681.

Posteriormente, empreendeu tradução do Antigo Testamento do hebraico. Conseguiu traduzir até Ezequiel capítulo 48, versículo 20, antes de falecer em 1691. Seus companheiros de trabalho honraram seu legado completando a obra que ele iniciara.

A Igreja Católica Romana, através da Inquisição, demonstrou hostilidade extrema ao trabalho de Almeida. Chegou ao ponto de queimá-lo em efígie em Goa, ato simbólico de condenação contra seu trabalho de tradução protestante.

A tradução de Almeida passou por numerosas revisões ao longo dos séculos. As versões mais conhecidas incluem a Almeida Revista e Corrigida (ARC) e a Almeida Revista e Atualizada (ARA), ambas publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil. Estas versões continuam sendo amplamente utilizadas em igrejas protestantes de língua portuguesa.

A Versão de Figueiredo

Padre Antônio Figueiredo, erudito português, investiu dezessete anos preparando sua tradução das Escrituras. Publicou o Novo Testamento em 1780 e o Antigo Testamento em 1790.

Esta versão baseou-se na Vulgata latina, não nas línguas originais. Embora representasse esforço significativo, a dependência da Vulgata limitou sua precisão comparada com traduções feitas diretamente do hebraico e grego.

A Tradução Brasileira

Em 1904, comissão de eruditos brasileiros iniciou projeto ambicioso de produzir tradução das línguas originais especificamente para contexto brasileiro. O Novo Testamento foi publicado em 1911, seguido pelo Antigo Testamento em 1917.

Esta tradução caracteriza-se por fidelidade extrema aos textos originais, seguindo metodologia rigorosamente literal. Embora valorizada por estudiosos pela precisão, sua rigidez literal tornou-a menos fluida e popular para leitura devocional cotidiana.

Versões Católicas em Português

Padre Hoden, tradutor brasileiro, produziu versão do Novo Testamento diretamente do grego, publicada em 1935. Esta tradução é valorizada para estudos comparativos e análise textual crítica.

Padre Matos Soares traduziu a Vulgata latina, concluindo trabalho em 1932, embora publicação ocorresse apenas em 1946. Esta tornou-se Bíblia popular entre católicos brasileiros durante décadas.

Como traduções católicas da época, a versão de Matos Soares apresenta limitações em fidelidade aos originais e reflete preconceitos denominacionais em certas passagens.

Entendendo as Peculiaridades do Texto Bíblico Moderno

Ao estudar Bíblias em português, reconhecer certas convenções editoriais ajuda compreensão adequada do texto.

Palavras em Itálico

Algumas traduções, particularmente a Almeida Revista e Corrigida, utilizam itálico para indicar palavras não presentes nos manuscritos originais. Estas palavras foram inseridas pelos tradutores para completar sentido em português.

Exemplo notável aparece em passagens sobre línguas em 1 Coríntios 14. O texto grego menciona apenas “línguas”, mas tradução adiciona “estranhas” para clareza contextual. O itálico indica esta adição editorial.

Compreender esta convenção evita confusão sobre o que constitui texto original versus interpretação do tradutor.

Notas Marginais e Rodapés

Bíblias de estudo frequentemente incluem notas marginais ou rodapés oferecendo traduções literais alternativas do hebraico ou grego. Estas notas também podem indicar variantes textuais ou dificuldades de tradução.

Tais recursos constituem ferramentas valiosas para aprofundar compreensão do significado original das Escrituras, permitindo que leitores sem conhecimento das línguas antigas acessem nuances textuais importantes.

Sumários, Títulos e Subtítulos

Os títulos de capítulos, sumários e subtítulos encontrados em Bíblias modernas não fazem parte do texto inspirado original. Editores adicionaram estes elementos para facilitar navegação e compreensão temática.

Embora úteis pedagogicamente, estes títulos ocasionalmente não correspondem precisamente ao conteúdo ou podem introduzir interpretações tendenciosas. Devem ser considerados ferramentas editoriais, não texto sagrado.

Exceções existem em algumas introduções de Salmos, onde frases introdutórias são consideradas parte do texto original inspirado.

Problemas com Títulos Inadequados

Alguns títulos tradicionais podem ser enganosos. A chamada “Parábola dos Dez Talentos” em Mateus 25 na verdade descreve distribuição de oito talentos inicialmente: cinco para um servo, dois para outro, e um para o terceiro.

A história do “Rico e Lázaro” em Lucas 16 comumente é chamada parábola, mas Jesus menciona nomes específicos de personagens, prática que não segue em parábolas. Isto sugere relato verídico, não alegoria fictícia.

Divisão em Capítulos e Versículos

A divisão do texto bíblico em capítulos e versículos não existia nos manuscritos originais. Stephen Langton introduziu divisão em capítulos em 1227, e Robert Estienne adicionou numeração de versículos em 1555.

Embora extremamente útil para referência e localização de passagens, esta divisão artificial ocasionalmente interrompe fluxo natural do pensamento. Mateus 16:28 conecta-se diretamente com Mateus 17:1, onde eventos da Transfiguração ocorrem “seis dias depois”, demonstrando continuidade quebrada pela divisão de capítulos.

Reconhecer que capítulos e versículos representam convenções editoriais posteriores ajuda leitura mais fluida e compreensão contextual adequada das Escrituras.

A Providência Divina na Preservação das Escrituras

A história das traduções bíblicas revela providência divina extraordinária na preservação e disseminação de Sua Palavra. Desde versões antigas em aramaico e grego até modernas traduções em milhares de idiomas, Deus tem garantido que Sua mensagem alcance povos de todas as línguas.

Cada tradução representa trabalho dedicado de servos comprometidos, frequentemente enfrentando perseguição e dificuldades extremas. O exemplo de Almeida, queimado em efígie pela Inquisição, ilustra o custo que alguns pagaram para tornar as Escrituras acessíveis.

A diversidade de traduções disponíveis atualmente representa bênção sem precedentes na história cristã. Nunca antes tantas pessoas tiveram acesso direto às Escrituras em suas próprias línguas.

Conclusão

A jornada das Escrituras desde línguas originais até português demonstra fidelidade divina em preservar e disseminar Sua Palavra. Através de esforços de tradutores dedicados ao longo dos séculos, povos de língua portuguesa podem acessar diretamente a revelação divina.

Compreender história das traduções fortalece apreciação pela Bíblia que possuímos e reconhecimento do privilégio de ler as Escrituras em nosso próprio idioma. Também equipa estudantes para usar ferramentas textuais adequadamente e discernir entre texto inspirado e convenções editoriais.

Que este conhecimento aprofunde compromisso com estudo diligente das Escrituras, reconhecendo privilégio extraordinário de ter acesso à Palavra de Deus preservada através dos séculos. A responsabilidade de guardar, estudar e proclamar esta Palavra recai agora sobre cada geração de crentes.

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